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Montezuma Cruz

Colaborador de Amazônias no portal Gente de Opinião e repórter da Superintendência de Comunicação Social do Governo de Rondônia. Anteriores: redator de Cidades no Jornal de Brasília. Editor da Agência Amazônia de Notícias em Brasília. Repórter especial e editor de Opinião no Correio do Estado, em Campo Grande (MS). Assessor de imprensa do senador Amir Lando [1999-2004] e do deputado Fernando Melo da Costa [2007-2010]. Editor de cidades em A Gazeta, Cuiabá (MT). Editor de internacional no O Diário do Norte do Paraná. Também trabalhou para A Tribuna, O Guaporé, O Parceleiro, O Estadão de Rondônia e sucursal da Empresa Brasileira de Notícias (EBN) em Porto Velho, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, O Globo [todos em Cuiabá e Porto Velho), Porantim em Manaus (AM), O Estado do Maranhão, Folha de Londrina, Revista do Mercosul e Foz em Resumo, ambos em Foz do Iguaçu.

'Corumbiara', um filme movido a indignação

14/09/2009 - [19:56] - Política

 
O diretor Vincent Carelli espera que Rondônia se conscientize a respeito do massacre a indígenas na divisa com Mato Grosso. O documentário premiado em Gramado (RS) traz conhecimentos sobre a própria história da ocupação do Estado. 


JULIO OLIVAR (*)
Agência Amazônia 


VILHENA, RO – Premiado no mês passado como o melhor filme pelos júris técnico e popular no 37º Festival de Cinema de Gramado (RS, o documentário “Corumbiara” retoma uma denúncia feita pelo indigenista Marcelo Santos na década de 1980 sobre um massacre de índios no município de Corumbiara, a 700 quilômetros de Porto Velho, capital de Rondônia, na Amazônia Ocidental Brasileira.

Lançado em janeiro pelo cineasta Vincent Carelli (também premiado como o melhor diretor), “Corumbiara” leva ao mundo a realidade amazônica. Uma realidade que põe a nu a problemática indígena – que não é atual, já que o massacre a povos indígenas entre Rondônia e Mato Grosso ocorre desde os anos 1960. 

Apesar da importância da premiação e do amplo reconhecimento da crítica especializada, o filme passou despercebido pela maioria dos órgãos de comunicação de Rondônia. Talvez por se acostumar às mazelas nas áreas indígenas e fundiárias. Imperdoável, porém, no sentido de perceber que os nossos problemas “criam asas” e alcançam populações mundo afora. 


Silenciosos poderão falar 

Cena de "Corumbiara", filme que todo rondoniense deve assistir, porque faz parte da história da ocupação deste Estado amazõnico / AG.NEWS

Cena de "Corumbiara", filme que todo rondoniense deve assistir, porque faz parte da história da ocupação deste Estado amazõnico / AG.NEWS

Ouvimos com exclusividade Vincent Carelli, que nos respondeu por e-mail, de Olinda (PE), onde mora atualmente. Sobre o fato de poucos rondonienses terem tomado conhecimento do filme, o cineasta tem esperança de que isso mude. O documentário agora está inscrito no Fest Cineamazônia, que ocorrerá em novembro em Porto Velho. “Espero que ele seja incluído na itinerância do festival e percorra as principais cidades de Rondônia. É importante que este público veja o filme. Daí, pode até surgir gente que guardou silêncio sobre o caso até agora e que resolva falar. Sempre tenho esta esperança”, afirma. 

A idéia do documentário surgiu quando o indigenista Marcelo Santos pediu ao antropólogo-cineasta Carelli para registrar os vestígios do massacre na fazenda Yvypitã, de Antonio José Junqueira Vilela, na Gleba Corumbiara, em 1986. “Ali começou o filme que eu levei 20 anos para finalizar”. Na região, ele registrou as evidências do massacre. Conseguiu filmar restos de utensílios e vestígios do que havia sido uma aldeia. Os relatos do massacre acabaram por cair no descrédito – considerados fantasia – e no esquecimento. 


Relações de paz interétnicas 

São 40 anos de indigenismo e 22 de cinema. Vincent criou, em 1987, o Vídeo nas Aldeias, um projeto que coloca o vídeo a serviço dos projetos políticos e culturais dos índios. Antes de “Corumbiara”, ele produziu 16 documentários e recebeu várias condecorações ao redor do mundo, entre eles o Prêmio Unesco, na 6ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico por respeito à diversidade cultural e de busca de relações de paz interétnicas. 

Como foi vencer o Festival de Gramado com uma temática e um modelo (documentário) pouco cultuados no Brasil? – perguntei-lhe. 

O diretor Vincent Carelli, premiado no Festival de Gramado (RS): o melhor filme / AG.NEWS

O diretor Vincent Carelli, premiado no Festival de Gramado (RS): o melhor filme / AG.NEWS

Carelli garante que foi ótimo. “Para expandir o raio de difusão do trabalho e sensibilizar pessoas que pouco são informadas e se interessam por este assunto. Cria condições para começar a se pensar em tentar distribuir o filme em sala de cinema”. 

Apesar do reconhecimento, falar em "sensibilizar as autoridades" acerca da questão indígena “é uma utopia” na visão do diretor. “O certo seria isso. Quando você é chamado à atenção, se manca e toma providências. Mas não acredito que ninguém dessa área oficial, vá se mancar. O mais importante é que o maior número possível de pessoas veja o trabalho e reflita sobre o acontecido. Ataques a índios isolados persistem até hoje, e os isolados do Peru estão se refugiando no Brasil”. 

Carelli conta que o filme nasceu do “coração de um cidadão indignado”, antes de ser visto como o grande tema que se apresentou ao diretor de cinema. “Antes de ser cineasta, sou indigenista. Este grande e espinhoso tema foi movido pela indignação por um crime tão bárbaro ter permanecido sem investigação”, desabafa. 


Marcelo Santos, um Indiana Jones 

VILHENA – Paulistano de nascimento, Marcelo abandonou a faculdade de biologia e veio para Rondônia em 1975 para tentar emprego no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Acabei no posto da Funai em Riozinho, distrito de Cacoal (RO), onde me informaram do curso de indigenismo”, disse. 

Em janeiro de 1976, aos 22 anos de idade, estava em Vilhena iniciando seu trabalho com os Nambiquara. Chegou a morar durante 14 anos numa tribo em Mato Grosso, a 110 quilômetros de Vilhena. 

Santos passou por maus-bocados em Rondônia. Por seguidos enfrentamentos aos "eiros" (como ele se refere aos madeireiros, garimpeiros e grileiros) foi ameaçado de morte algumas vezes. Chegou a receber uma insígnia pouco comum: a de persona non grata no Estado. Que foi concedida por uma Assembléia Legislativa cuja totalidade de membros foi denunciada por atos de corrupção. 

O indigenista sempre foi visto como “agitador” e “inimigo do desenvolvimento”. Um marginal entre as autoridades. Fora do estado era admirado, sendo tema de peças de monografia e aparecendo na mídia internacional como uma espécie de Indiana Jones da Amazônia. Também foi reconhecido pelo Governo Federal. Em 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso entregou a ele o título de Cavaleiro de Ordem do Rio Branco. 

Hoje aposentado e morando numa chácara em Goiás, Marcelo continua o mesmo idealista de sempre. Contundente, diz que a premiação do filme “Corumbiara” torna a história dos massacres “uma questão pública”. Não dá mais para o Estado brasileiro ignorar o que aconteceu. Para ele, “está na hora de começar a discutir os motivos da impunidade reinante nos crimes contra os índios. Não só dos Canoe, dos Akunt'su e do “Índio do Buraco”, mas dos dois Piripikura no noroeste do Amazonas, do grupo que vive no município de Colniza (MT)”. 

Desde que começou a trabalhar na Funai, há 33 anos, Santos lamenta qye nenhum governo deu atenção à questão indígena. “A não ser quando pipocava na mídia alguma barbaridade que manchasse a nossa imagem externa. Índio não dá voto e atrapalha a grilagem das terras pelos grupos políticos e empresariais”, desabafou. 

Segundo o indigenista, na região de Rondônia o que mudou “um pouco” foi uma “pequena moralização do Ibama, com o afastamento do bando de corruptos pela Marina Silva [ele atribui à senadora acreana, ex-ministra do Meio Ambiente, responsabilidade pelos desmandos praticados por ex-funcionários do instituto] e o retorno do sertanista “corajoso, honesto e dedicado”, Altair Algayer, à frente da Coordenação de Índios Isolados da Funai no Estado. 

No filme “Corumbiara”, Algayer aparece como um dos protagonistas, ao lado de Santos. “Não podemos esquecer que o trabalho foi de toda uma equipe, de índios, seringueiros, indigenistas, lingüistas e antropólogos”. (J.O.)

LEIA TAMBÉM NA SÉRIE RONDÔNIA INCA
Índios Omerê mortos e malocas destruídas

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Comentários

  • Marcelo - 15/09/2009

    Júlio,rnrnJúlio parece que há um pequeno equívico, não atribui a Marina a responsabilidade pelos desmandos praticados por ex-funcionários do IBAMA.rnNa verdade eu atribui a Marina a moralização do IBAMA de Rondônia, com o afastamento da gang de corruptos que infestavam o órgão e a nomeação de ativistas das ongs ambientalistas no seu lugar.rn

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